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Aconteceu-me

Aconteceu-me de José de Almada Negreiros, Associação despe-te que Suas
Eu vinha de comprar fósforos e uns olhos de mulher feita olhos de menos idade que a sua não deixavam acender-me o cigarro. Eu era eureka para aqueles olhos. Entre mim e ela passava gente como se não passasse e ela não podia ficar parada nem eu vê-la sumir-se. Retive a sua silhueta para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado e eu tenho visto olhos! mas nenhuns que me vissem nenhuns para quem eu fosse um achado existir para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia olhos como agulhas de despertar como íman de atrair-me vivo olhos para mim! Quando havia mais luz a luz tornava-me quasi real o seu corpo e apagavam-se-me os seus olhos o mistério suspenso por um cabelo pelo hábito deste real injusto tinha de pôr mais distância entre ela e mim para acender outra vez aqueles olhos que talvez não fossem como eu os vi e ainda que o não fossem, que importa? vi o mistério! Obrigado a ti mulher que não conheço. josé de almada negreiros almada o es…

Pobre e só

Vida triste a de sozinho. Solidão, sem luxo. Ambiente frio, desconforto. Pobreza no coração e no armário. Velhice, doença, dor, gelo. Não há como ir ter contigo à procura de um conforto. E, se me for possível ir, não tenho como regressar. Não existe com que confortar o desconsolo. Não há solidariedade. Não há pão. Não há a quem recorrer. Ninguém. Não existem balas para a pistola. A corda está podre. Não há morte. Não há vida. Não há saída. Luís Francisco Borges Ponta Delgada, 2 de fevereiro de 2017
Texto escrito com alguma tristeza para com o meu povo. Este povo, tão virado para o seu umbigo, que precisa de um decreto para ceder prioridade ou ceder o seu lugar no autocarro a um idoso. Este povo que é tão trabalhador como egoísta, tão poeta e romântico como cruel e egocêntrico, tão latino como rasca.

Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

                                     José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

lá longe, no alto

...atirei-lhe uma mensagem e, mesmo sem a ver, senti-a. lá do longe, sorriu. por momentos, atirou com tudo ao lado, abriu os lábios e sorriu. e eu, de onde estou, senti-lhe a felicidade. senti-lhe a mão e disse-lhe: agora estou aqui. ela, levantou a feição, endireitou-se, e, mesmo sozinha, festejou... LBorges 17-12-2014

O GUARDADOR DE REBANHOS - XL

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.                                                   Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.                                   Fernando Pessoa

O GUARDADOR DE REBANHOS - XXXVIII

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral…                             Fernando Pessoa