MARIA

Maria
Flor do meu coração,
É raro o momento do dia
Em que não penso em ti e no nosso filho,

Como se o trouxesse pela mão
Ou contigo pelo braço…
Juro-te que nunca vi nada que se pareça
com o calvário do emigrante!
O Sol nasce sem brilho,
Frio e distante….
O corpo parece sem vida
E a Vida sem razão de ser…
Acredita, minha querida,
Por mais que te estremeça,
Já não sei compreender
Tudo o que me passa,
Num prenúncio de desgraça,
Por esta pobre cabeça….
O coração, escaldante como lume,
O pensamento, vazio e incerto,
Perdido em estranho ciúme,
Nos espinhos de um remorso,
Doloroso e encoberto…
(…)
(…)
(…)
Não leves a mal, mas juro-te, Maria,
Que tudo daria
Para outra vez cavar a nossa horta,
Contigo sentada no degrau da porta
E o menino à tua beira,
A engatinhar pela eira…

(…)
Nada no mundo,
Nada, podia pagar
O meu sono descansado,
Junto ao teu corpo adorado, doce e profundo…
(…)
Pois, por mim, nos cardos da saudade,
Só tudo te poderia descrever,
De todo o coração e ao natural,
Nas suas cores e com o devido brilho,
Se o céu, na sua vastidão e clara imensidade,
Fosse o papel
E a tinta o azul do mar,
Num luzeiro de beijos, a voar, para ti e nosso filho,
Como sou, até à eternidade,
O sempre teu – MANUEL

in Carta de Longe
Julho de 1956
Manuel Ferreira

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